A maior farsa da história!

Há cerca de 13 mil anos atrás, houve a extinção de nossos irmãos Homo floresienses, justamente quando iniciou o processo de Revolução Agrícola e passamos a ser a única espécie humana a habitar o planeta. Sobre isso tenho uma teoria:


“Estávamos lá, em nosso processo de evolução, vivendo nossa vida nômade, de vez em quando achávamos umas frutas, hora e meia, comia uns insetos para quebrar o jejum, e não muito raro encontrávamos com alguns irmãos, obviamente um pouco diferente, não eram “sábios” como a gente, e cada irmão que a gente encontrava, “sábios” que somos, gostávamos de sacanear, levar vantagem em cima dos nossos próprios irmãos. Desenvolvemos estratégias de caça e coleta mais sofisticadas que nossos manos, e só de sacanagem, não ensinávamos nada para eles, deixávamos ficarem com fome, afinal, a vida é uma competição, não é verdade?


Mas ainda assim, eles eram guerreiros, sabiam se virar, e de uma certa forma não dependiam da gente, e isso instigava nossos ancestrais. Até que os “sábios”, entediados com todo conforto que sua sabedoria havia lhe proporcionado, afinal nessa época já se destacavam, começaram a subir rumo ao topo da cadeia alimentar, suas novas tecnologias, e a forma como se organizavam em grupos permitiram adquirir habilidades que tornava possível o abate de grandes predadores. Com essa carta na manga, decidiram que era a hora de começar a disseminar seus pensamentos, e com aquele desejo de tentar dominar o mundo, convocaram uma assembleia - e nesse momento qualquer semelhança com os dias de hoje é mera coincidência - representantes dos floresienses encontraram com os representantes dos “sábios” para decidirem como seria o futuro de nossa espécie:


Sapiens: Então irmãos, a parada é o seguinte, nós desenvolvemos umas estratégias aí, que conseguiremos parar de ficar andando e procurando comida, não precisaremos mais ficar de jejum de forma forçada, poderemos comer de três em três horas, poderemos ter uma penca de filhos, e a nossa vida será muito melhor, claro que quem tiver mais filhos, terá que trabalhar algumas horas a mais, mas isso é tranquilo de resolver.


Floresienses: Como assim? Explica melhor esse negócio aí, trabalhar?

Sapiens: funciona assim, vocês acordarão por volta das 07:00 da manhã, dá um beijo na patroa, e encontra com a rapaziada por volta das 08:00, para plantar as sementes dos grãos e das frutas, carregar uns baldes de água para molhar as plantas e lá por volta de meio dia, você volta para casa, e desse monte de frutas e grãos que você plantou, você leva uma sacolinha para você e sua esposa almoçarem. Se tiver filho você pode levar mais uma sacolinha, mas tem que voltar mais cedo para compensar, beleza?


Floresienses: Beleza, entendi. Depois do almoço eu posso cuidar da minha família, brincar com meus filhos, e ter um tempo para dar uma estudada nessas estratégias que você falou, para que no futuro eu possa empreender e cuidar da minha família em qualquer lugar desse mundão, igual a nossa vida de nômade.


Sapiens: (risos) não, não, parece que você não entendeu, mas não tem problema, afinal nós que somos “sábios”, deixa eu continuar a explicação. Ali, por volta das 14:00, você vai voltar para encontrar com a rapaziada de novo, esse negócio de ficar em casa é coisa para mulher, homem tem que ir para rua para garantir o sustento da família, e nesse período é a hora de cuidar do nosso rebanho, porque agora vai ter carne a vontade. Olha que coisa boa, você vai poder comer carne todo dia. Vamos cuidar do rebanho, engordar as crias, e quando tiver no ponto, a gente faz aquela matança geral. Chegando no final da tarde, lá pelas 18:00, aí a rapaziada reúne e vai lá ver a cevada, e se tudo der certo, a gente toma um suco de cevada juntos para comemorar o dia produtivo que tivemos, e depois a gente volta para casa. As crianças já estarão dormindo, você dá um beijo na patroa e descansa a noite inteira.


Floresienses: Ah sim, entendi. A gente passa um dia todo junto, produzindo, deixa tudo adiantado, antes a gente matava um ou outro bicho quando tinha, agora vai ter um monte e aí a gente mata tudo de uma vez, comemora a fartura, e depois, no outro dia, a gente pode passar com a família, com mais tempo para planejar nossa vida. Estou começando a entender esse negócio de Agricultura.


Sapiens: (mais risos) Eu não vou desistir de você meu irmão, e sei que você vai entender. No outro dia, quando você acordar, é a mesma coisa, você encontra com a rapâize pela manhã, dá uma passadinha em casa, ou então se quiser nem precisa também não, tem uma rede lá na plantação que é top, e quando der 14:00 tem que cuidar do rebanho, e no final do dia, se produzirmos bem, a gente comemora de novo.


Floresienses: Rapaz, mas esse negócio de trabalho tem que ser assim mesmo? Eu nem sei se gosto tanto de cevada assim, para todo dia eu ter que ficar cuidando dela. E outra, comer esse monte de comida, a gente é que vai acabar engordando. Prefiro viver minha vida por conta própria mesmo, a gente corre uns perigos de vez em quando, é verdade, mas pelo menos quando eu não estou afim de caçar, eu posso ficar sem fazer nada, junto com minha família, de boa. Obrigado pela proposta, mas isso aí é muito difícil para mim, não consigo entender, realmente não sou um “sábio”.


Sapiens: (agora com um semblante mais sério) Tudo bem, para quem não concorda, temos aquele hotel enorme ali na frente. Lá você terá um uniforme, tem até direito a um quarto, mas como não é “sábio” terá que dividir com mais algumas famílias esse quarto, tem duas refeições por dia, e um banho de Sol de 15 minutos. É bem bacana, e vamos cuidar direitinho de vocês.


Floresienses: (risos) não, não meu irmão, não precisa se preocupar comigo, eu vou viver aí nesse mundão mesmo, correndo pela natureza, sem esse negócio de uniforme, conhecendo vários lugares, pode deixar que vou tomar cuidado para nenhum predador me pegar, e vou levar sempre comigo um gel de babosa para dar aquela protegida do Sol, está suave.

Sapiens: (irado) Pois bem, já que vocês preferem assim, vamos te apresentar nossa nova tecnologia. Está vendo essa machadinha aqui, agora a pedra não é mais lascada, agora a pedra é polida, assim ela corta bem melhor e pode matar com muito mais facilidade.

Assim foram extintos nossos irmãos.”



Pode ser um pouco exagerada, na realidade, nem é verdade, mas pare um pouco e reflita sobre essa teoria, talvez ela não seja tão impossível de ter acontecido, não é mesmo?

Apesar de nossa espécie ter uma mente de caçadores e coletores, nossa culinária é derivada dos antigos agricultores. Usei essa conversa fictícia para ilustrar o cenário que estava por surgir, pois foi exatamente isso que a Revolução Agrícola proporcionou: uma vida mais entediante e humanos com cada vez menos momentos de felicidade, uma dieta menos nutritiva e uma rotina mais sedentária.


É fato que a Revolução Agrícola permitiu o aumento populacional de nossa espécie, devido a uma fartura de determinados alimentos, mas esses seletos alimentos não fizeram com que a qualidade de nossa dieta aumentasse. Passamos a trabalhar mais que os caçadores e coletores, realizando movimentos que nosso corpo não tinha evoluído para realiza-los, como carregar as pedras que atrapalhavam o crescimento das plantações de trigo por exemplo, nossos joelhos, coluna, pescoço começaram a sofrer e nossa qualidade alimentar piorou.


Consegue entender porque eu coloquei o “sábio” entre parênteses?


Ao invés de domesticar as plantas, o Homo sapiens passou a ser domesticado por elas, começando pelo trigo. Do amanhecer ao entardecer, os humanos não faziam muito mais da vida a não ser cuidar de plantas de trigo, e não foi uma tarefa fácil.


O trigo não cresce em áreas com rochas ou pedregulhos, logo alguém teria que limpar os campos e eliminar esse obstáculo.

O trigo é egoísta, e não divide sua água e nutrientes com outras plantas, logo, alguém teve que ficar matando as ervas daninhas que nasciam próximas da plantação.

O trigo poderia adoecer, logo alguém teria que ficar de olhos em vermes e pragas que pudessem aparecer.

O trigo poderia ser atacado por coelhos ou nuvens de gafanhoto, sendo assim, alguém precisaria produzir cercas e vigiar os campos.

Para crescer, o trigo precisava de água, e com isso alguém para cavar canais de irrigação, ou carregar pesados baldes com água.


E você achando que protusão discal, artrite, hérnia é coisa atual? Foi nessa época em que tudo isso começou. Sim, pois as tarefas agrícolas exigiram mais tempo, mais esforço e com isso a obrigatoriedade de se instalar permanentemente nas proximidades de seus campos e rebanhos, fazendo com que o estilo de vida fosse alterado por completo. Se você levar em consideração a etimologia da palavra, “domesticar” vem do latim domus, que significa “casa”, não será difícil entender se foi o homem quem domesticou o trigo, ou se foi o trigo quem domesticou o homem.


Assim como a quantidade de dinheiro disponível na conta bancária de uma empresa mede seu sucesso, o número de sapiens espalhados pelo planeta terra mede o sucesso dessa espécie. A métrica utilizada pelo pensamento evolutivo de nada tem a ver com a fome, a dor ou a qualidade de vida de uma espécie, assim como uma empresa não mede seu sucesso pela felicidade de seus colaboradores. Se uma empresa não tem dinheiro, ela decreta falência, assim como uma espécie quando morre seu último representante se torna extinta. Talvez possamos dizer que Revolução Agrícola possibilitou com que mantivéssemos mais pessoas vivas, porém em piores condições de vida. Talvez tenhamos caído numa grande armadilha bem conhecida nos tempos atuais, o que chamamos de luxo.


O pensamento de produzirmos alimentos além de nossas necessidades provavelmente tem a ver com um pensamento no futuro, uma preocupação de termos em estoque suprimentos que nos auxilie em tempos de escassez.


Assim, caçadores e coletores dedicavam cada vez mais esforços ao cultivo de cereais, tendo menos tempo para a caça e coleta, logo, tornaram-se agricultores. O pensamento era: quanto mais trabalho, melhor seria sua vida, teriam uma colheita mais farta e não precisariam se preocupar com anos difíceis, porém esqueceram de fazer alguns cálculos.

Esqueceram por exemplo que nasceriam mais crianças, o mesmo que dizer que o trigo teria que ser compartilhado com mais gente, afinal o mingau para as crianças já estava substituindo o leite materno, e isso aumentaria consideravelmente o consumo.


Com pouca variedade de nutrientes, o sistema imunológico tende a ficar mais desprotegido, aumentando o risco de contrariar doenças infecciosas. Tornar-se dependentes de uma pequena variedade de alimentos na verdade estava expondo os agricultores aos riscos de uma seca, e ainda assim, se prosperassem, uma plantação abundante certamente atrairia ladrões de sua produção, o que os obrigaria a redobrar os cuidados construindo muros, ficando sempre alertas, e vivendo uma vida sob tensão.


A busca por uma vida mais luxuosa resultou em muitas dificuldades e acionou a armadilha, e não pela última vez na história, acontece conosco até hoje. Os luxos tendem a se tornar necessidades e a gerar novas obrigações.

Por exemplo, você provavelmente conhece alguém que já aceitou um emprego em uma grande empresa, alguém que se dedicou, se esforçou, gastou muita de sua energia para fazer um pé de meia e lá por volta dos 40 anos, finalmente correr atrás de seus reais interesses, não é verdade. Quantos desses, chegaram aos 40 com filhos para criar, e mais um “open bar” de boletos para pagar todo início de mês, e que agora seu maior desejo é que chegue as férias para neste momento sim ter um momento dedicado ao seu próprio interesse?

Você acha que esse indivíduo vai conseguir voltar no tempo, e viver um estilo de vida da Idade da Pedra lascada? Não, ele estará cada vez mais preso, escravizado pelo sistema, e só nesse momento perceberá que a armadilha foi acionada e nem se deu conta.


Mais um exemplo seria o avanço tecnológico a favor da comunicação social. Se você nasceu até a geração dos anos 90, você talvez se lembrará como se sentia importante quando recebia uma carta pelo correio de um amigo distante, ou de um amor que não via a muito tempo. Era trabalhoso, tínhamos que pensar cuidadosamente o que queríamos transmitir com aquela carta, pensar em cada palavra, e depois disso ir até o correio para que depois de alguns dias ou semanas sua mensagem fosse entregue ao destinatário. Só escrevíamos cartas, quando tínhamos algo realmente importante para comunicar. E não para por aí, da mesma forma que nos sentíamos importantes com tal feito, o remetente esperava algo a altura, e que poderia ou não ser concretizado, dependendo da consideração que o destinatário teria. Atualmente com alguns toques no celular e lemos centenas e milhares de e-mails e mensagens, que são visualizados quase que instantaneamente, e ainda somos vítimas de um pré-conceito quando não respondemos assim que visualizamos.




Liberdade, domesticação, servidão e escravização do humano “sábio”. Não se esqueça dessa imagem.


Talvez a lição mais importante que possamos tirar da Revolução Agrícola seria sobre a relação entre sucesso evolutivo x sofrimento individual.


Assim como os humanos começaram a se espalhar pelo mundo, o processo de domesticação e as habilidades humanas para tal foram crescendo e se desenvolvendo também. Hoje temos bilhões de ovelhas, galinhas, e porcos pelo mundo, e se considerarmos o relativo parâmetro de sucesso de evolução das espécies, podemos dizer que ovelhas, galinhas porcos e vacas são uma das espécies mais bem-sucedidas. Mas como dito anteriormente, se a métrica utilizada não levou em consideração a felicidade do homem sábio, também não levaria dos animais.


Pegamos a expectativa de vida de uma galinha na natureza como exemplo, se não fosse atacada por algum predador, viveria em média de 5 a 10 anos tranquilamente, e se ainda assim fosse feita de presa, teria grandes chances de viver por alguns anos. O mesmo aconteceria com uma vaca, que teria uma média de vida girando em torno de 15 a 20 anos.


Mas não é isso que vemos atualmente, foi tirada a liberdade dessas espécies de animais, violada seu direito de vida, para que servisse aos interesses humanos. Para que deixar uma galinha viver mais do que alguns meses, se nesse período ela alcançaria seu tamanho máximo, não é verdade? O máximo que poderia acontecer para que essa expectativa de vida aumentasse um pouco, é se esses animais conseguissem servir um pouco mais, sendo galinhas chocadeiras ou vacas leiteiras. E antes que você mulher que está lendo esse livro agora, já pense no sofrimento que as fêmeas sofrem no mundo animal, os machos não saíram ilesos desse cenário.


Machos bovinos e equinos por exemplo, talvez o mais ganharão e dotado geneticamente teria uma expectativa de vida maior, e algumas regalias, como um harém de algumas belas éguas dotadas de uma anca de causar inveja nos seus irmão que foram puxar carroça por não ter tamanha aptidão, junto com seus primos bovinos no arado de terras, que também não tiveram sorte de estar no harém bovino, logo seus laços sociais eram cortados, sua agressividade e sexualidade contidos, pois não reproduziam e sua liberdade de movimentos era restringida. Foi nessa mesma época que iniciaram o desenvolvimento de técnicas como cativeiros, esses currais que vemos os animais em jaulas, castração, treinamento com chicotes, um tipo de adestramento muito utilizado com os escravos, que os próprios humanos domesticariam num futuro não muito longe.


Há quem diga que a Revolução Agrícola colocou a humanidade no caminho da prosperidade, outros podem dizer que a humanidade foi levada para o caminho da perdição, mas o fato é que esse momento foi decisivo, para que os sapiens abandonassem sua conexão com a natureza, afastasse de sua essência, adormecesse sua consciência e correr rumo a ganância e alienação da espécie.


Diferente dos caçadores e coletores que viviam muito no presente, os agricultores davam muito mais importância para o futuro, precisavam disso em mente para dar sentido a todo trabalho que realizavam, afinal sua economia era derivada de longos meses de cultivo para um curto período de colheita, que apesar de terem uma colheita na maioria das vezes abundante, é um pensamento que envolve uma energia, cria-se uma aura de escassez que nem era percebida, e que não é até os dias atuais pela grande parte que ainda permanece com a consciência adormecida. Talvez seja nesse momento, mesmo inconsciente, que fora percebido os primeiros sintomas de ansiedade humana, coisa que não acometia os caçadores e coletores, que por obviamente ter um futuro muito menos previsível, não se preocupavam com coisas que não podiam controlar.


Com todos os prós e contras, o sapiens seguiu seu caminho de evolução, e as preocupações com o futuro eram cada vez mais importantes dentro da mente humana. Humanos foram desenvolvendo suas habilidades de plantio e colheita, começaram a desenvolver formas de transportar o alimento e essa soma de habilidade com tecnologia de transportes permitiu o surgimento de aldeias, vilarejos e cidades, que agora criariam as primeiras redes de comércio e alguns reinos.


Baseada nos conceitos da realidade imaginada, uma crença em mitos que tinha poder de influenciar uma comunidade, agora ordens imaginadas se fez necessária para organizar uma nova estrutura social que estava surgindo, fortalecido por redes de cooperação com crenças em mitos compartilhados. Acreditar em uma ordem imaginada não significava que a mesma seja objetivamente verdadeira, mas essa crença permite que essas redes cooperassem de maneira eficaz para que líderes construíssem impérios sociais e ideologias religiosas.


*Alguns trechos desse artigo foi inspirado no livro: Sapiens: Uma breve história da humanidade.


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